No último domingo de carnaval resolvemos ir conhecer a famosa vila inglesa de Paranapiacaba.

Existem várias formas de se chegar até lá, são elas:

- Via Expresso Turístico – Parte aos domingos da estação Luz e vai até Paranapiacaba. As passagens devem ser compradas com muita antecedência pois sempre lota e são poucas as vagas. O valor é meio caro, para uma pessoa, R$ 32,00 e duas R$ 48,00 – os valores incluem somente a passagem e qualquer passeio extra dentro da vila devem ser comprados à parte. Para às 8h30 e a viagem dura aproximadamente 1 hora. Retorna à São Paulo às 16h30.

- Bike – Sim, pra você que gosta de aventuras e da magrelinha, pode pegar o trem regular até Rio Grande da Serra e de lá ir pedalando até a vila de Paranapiacaba, e aproveitar o caminho e ir parando nas cachoeiras que ficam próximas à rodovia.

- Carro – Há um estacionamento na chegada da vila.

- Via trem regular + ônibus em Rio Grande da Serra – Utilizamos este meio para ir e meio que foi decepcionante para nós. Explicarei abaixo.

Como chegamos?

Como o Expresso Turístico já estava cheio, resolvemos ir de trem regular da CPTM até a última estação da linha 10 – Turquesa, Rio Grande da Serra. Um ônibus parte de um ponto ao lado da estação a cada 30 minutos. No dia em que fomos, havia uma fila gigantesca esperando pelo ônibus da EMTU. A fila estava tão grande que tivemos que esperar pelo segundo ônibus para embarcarmos. Só nesta espera, foi 1 hora em pé, no sol escaldante.

Quando embarcamos e pagamos a passagem (R$ 2,95) outro problema: a catraca estava com problemas e a cobradora tinha que ficar fazendo curto-circuito em dois fios para conseguir liberar a passagem dos passageiros.

A viagem em si ocorreu super tranquilamente. Chegamos em Paranapiacaba em 20 minutos. O ônibus tem ponto final na frente do cemitério da cidade – é neste local do outro lado da rua que se pega o transporte para a volta até Rio Grande da Serra.

No retorno, mais problemas. Ficamos aguardando 30 minutos para que pudéssemos embarcar no ônibus que estava parado no ponto. Quando finalmente fomos liberados a entrar, o ônibus, como na vinda, também apresentou problema na catraca. Desta vez, a catraca travou de forma que nem reza brava conseguia liberar a passagem. Solução? Aguardar mais 30 minutos para que o próximo ônibus pudesse levar os passageiros para a cidade. Mais uma hora perdida apenas aguardando o transporte.

É lamentável que as cidades envolvidas aceitem que as empresas da EMTU prestem um serviço tão ruim assim, principalmente no acesso à uma cidade turística como Paranapiacaba.

Não entedemos também por que não fazem mais ofertas de trens até Paranapiacaba se já existe toda a estrutura física na vila para receber trens de passageiros. Somente é feita uma viagem por domingo através do Expresso Turístico (e todos vão sempre cheios).

Recomendamos que evitem fazer este trajeto se não quiserem perder tempo ou passar nervoso.

História de Paranapiacaba

A Vila de Paranapiacaba surgiu da necessidade de expandir e facilitar o transporte dos grãos de café até o porto de Santos.

Em 1856, através de um decreto imperial, dava à São Paulo Railway Co. a concessão para explorar a ferrovia por 90 anos.

Em 1860, começaram a construir a ferrovia de 139 km que iria cortar a Serra do Mar e vencer o maior problema da região: o terreno super íngreme.

Optaram por utilizar na descida da serra um sistema chamado Funicular: onde o percurso completo foi dividido em 4 partes planas, cada parte possuia uma máquina fixa à vapor e que tracionava as composições, auxiliando a subida e a descida de grandes cargas pela íngreme ferrovia. Este sistema era mais seguro e eficiente do que o tradicional, onde a máquina do trem fazia o esforço sozinha.

Por causa deste sistema, foi necessário a construção de uma vila no alto da serra, que seria responsável por ser a residência dos funcionários da companhia. Engenheiros, mecânicos e demais trabalhadores responsáveis pela manutenção e operação da ferrovia moravam na vila.

A vila está dividida em duas partes, parte baixa ou Vila de Martin Smith (que foi construída pela São Paulo Railway Co. e possui casas em estilo ingleses) e a parte alta ou Vila Portuguesa (surgiu pouco após a construção da Vila Baixa e possui influências arquitetônicas portuguesas e inglesas.) Ambos os lados são interligados através da ponte de ferro que passa por cima de todas as linhas de manobras das locomotivas e trens.

 

Durante todo o período de concessão da ferrovia à São Paulo Railway Co., a vila era uma cidade bem administrada e cuidada. Em 1946, a concessão acabou e todo o patrimônio foi incorporado à União – este fato é apontado pelos moradores como o início da decadência do local.

Em 1970, parte do sistema funicular foi desativado, causando muitas demissões e aposentadorias forçadas aos moradores da vila.

Em 1980, foi criado o Movimento Pró-Piranapiacaba e em 86, a extinta Rede Ferroviária restaurou o sistema funicular entre o 4º e o 5º patamares e o Castelinho (casa localizada no alto do morro, onde outrora morava o Engenheiro Chefe e de onde é possível ver todo o pátio de manobras e os galpões de manutenção dos trens).

Em 1981, a Estação Alto da Serra foi totalmente destruída por um incêndio – e permanece destruída até hoje.

Em 2002, a prefeitura de Santo André adquiriu a Vila de Paranapiacaba da Rede Ferroviária Federal.

O passeio

Como já falei, optamos por ir à vila utilizando o trem da CPTM até Rio Grande da Serra e pegando o ônibus capenga da EMTU até a vila. O desembarque ocorre na frente do cemitério da cidade, e foi aí que começamos nosso passeio.

O cemintério é super pequeno, um pouco descuidado. A vista para a serra é linda.

Saindo pelo portão localizado na parte superior do cemitério, tem-se o acesso à Igreja matriz Senhor Bom Jesus, que começou a ser construída em 1884 e foi concluída em 1889, encontra-se no ponto mais alta da vila nova e pode ser vista em qualquer parte de Paranapiacaba.

A partir da igreja, descemos pelas ruas estreitas e íngremes da Vila Alta. As características arquitetônicas e as cores vivas das casas apresentam as influências portuguesas. Nesta parte da vila infelizmente fizeram muitos “puxadinhos” que (muitas vezes) acabaram descaracterizando a arquitetura original.

Após várias rampas e curvas, chegamos à passarela de ferro que liga a parte alta com a parte baixa. O trajeto de uns 200 metros de comprimento é uma emoção à parte. O chão da passarela está se desfazendo, feito de madeira (provavelmente de sua inauguração há quase 100 anos) e com cobertura de asfalto jogado por cima. Muitas das tábuas já caíram e foram substituídas porcamente por táboas mais frágeis ainda. Quando estivemos lá, frequentemente viamos motos se arriscando por entre os pedestres que cruzavam a passarela.

No meio do trajeto há uma rampa que dá acesso à plataforma de onde parte a Maria Fumaça (que faz um pequeno – pequeno mesmo – passeio pelos trilhos da região). O passeio custa R$ 5,00 e dura aproximadamente 10 minutos – distância super pequena e o vagão de passageiros cheio de madeiras quebradas por fora e aparentemente mal conservado. Não fizemos o passeio, mas as crianças pareciam adorar.

Na mesma entrada da Maria Fumaça, encontra-se o acesso para ir até o Museu Funicular. O ingresso custa R$ 3,00 e você percorre um caminho delimitado por entre os trilhos. Mato alto e barro proveniente de um cano furado fazem parte deste caminho até a entrada do museu.

Logo na entrada do museu, nos deparamos com algumas máquinas antigas à vapor. O museu fica em um galpão onde antigamente ficava a área de manutenção dos trens e locomotivas. Os objetos estão expostos por características ou funcionalidade. Grandes objetos e grande quantidade de relíquias fazem parte desde que é o maior museu funicular do mundo.

Ao sair pelas portas de trás do galpão, tem-se acesso aos equipamentos funiculares  que auxiliavam a movimentação dos trens pelo sistema de decida e subida da serra.

Nesta parte exterior do museu, o abadono é muito visível, não somente por causa dos vagões expostos que se encontram em processo de deterioração, mas também devido ao mato alto e as precárias indicações de que não é permitido a passagem em determinados locais (fitas de isolamento rompidas e totalmente invisíveis aos olhos das pessoas).

Não há qualquer tipo de indicação sobre a história das máquinas ou equipamentos expostos no museu – no máximo o nome do equipamento e/ou a data.

O museu é muito interessante e vale a visita para quem adora a história dos trilhos brasileiros. Mas é uma pena que o pouco dos objetos históricos que existem por lá estejam tão mal cuidados. A área externa apresenta inúmeros perigos aos visitantes, principalmente àqueles que vão com crianças que adoram fuçar em tudo.

Saindo do museu e voltando para a passarela, mais alguns metros e se chega ao ponto principal da vila baixa de Paranapiacaba.

Algumas intervenções e a construção de um bar logo nesta entrada descaracterizam toda a arquitetura do local.

Logo na chegada da vila velha você se depara com o antigo pronto socorro da vila e que hoje serve de central turística da cidade.

Seguindo pelo caminho à esquerda, você contorna os trilhos e segue em direção às casas de madeira inglesas, passando pelos grandes armazéns que serviam para a escola SENAI, que profissionalizava os trabalhadores e estudantes ao trabalho na ferrovia.

Hoje estes galpões estão praticamente abandonados e cheios de tranqueiras, madeiras e sujeiras. A excessão fica por conta de um único galpão que serve de academia aos moradores da vila.

Continuando pelo caminho da rua da Estação, é possível ver a antiga estação de Paranapiacaba e onde hoje em dia o Expresso Turístico fica estacionado – prédio em ruínas.

Subindo pelas ruas chegamos finalmente ao conjunto de casas com estilo inglês e que são uma das poucas coisas conservadas na vila. Utilizada pelos atuais moradores, as casas abrigam também cafeterias, restaurantes, pousadas e lojas de artesanatos. Todas são feitas de madeira marrom escuro e são, em sua maioria, geminadas.

Vagando pelas ruas chegamos a um imponente prédio, erguido na década de 30, abriga o Clube Lira Serrana e foi totalmente restaurado recentemente. O prédio possui uma cafeteria e um salão de festas (onde iria ocorrer nas noites de carnaval bailes de máscara e marchinhas – tudo gratuito).

Em frente ao prédio do clube, está localizado o restaurante do Tio César, onde almoçamos. No restaurante, pede-se o prato principal (alguma das carnes do cardápio) e serve-se à vontade dos acompanhamentos e saladas. Pedimos bife à parmegiana. O bife ocupava todo o prato e estava delicioso. Carne molinha e saborosa. O almoço no restaurante custa R$ 12,00 e você pode repetir os acompanhamentos e as saladas à vontade – o feijão tropeiro deles estava simplesmente fantástico! Recomendamos muito que almoce por lá.

O local do restaurante ocupa o espaço de uma casa, a decoração é bonitinha e possui mesas na parte interna e externa. Sentamos na varanda do local e pudemos sentir a leve brisa da neblina que começava a encobrir a cidade em plena uma hora da tarde. A vista do local, de frente para o clube Lira Serrana, é muito agradável também.

Partimos pela avenida Antônio Olinto e chegamos ao pé da colina onde foi construída o Castelinho, famosa residência do Engenheiro-Chefe e de onde ele comandava e observava todos os trabalhadores da vila.

Subimos a colina utilizando as escadas escondidas por entre os matos. O Castelinho também foi recentemente restaurado e hoje abriga um museu que conta a história da vila e da própria casa do engenheiro-chefe. A entrada é gratuita,  mas estava lotada, com fila do lado de fora. Desistimos de entrar e ficamos somente observando a bela vista que se tem do alto do morro. O caminho de descida partimos pelas rampas localizadas em frente à porta da casa e que faz zig-zag por entre as árvores e é preciso tomar cuidado, pois o caminho pode ser traiçoeiro já que parte do caminho está destruído.

Por essa hora, a neblina já estava sobre toda a vila. A chegada dela pelos trilhos que foram cravados por entre as montanhas é fantástica. Um veio de seda que vai encobrindo as montanhas, árvores e o centenário relógio central da vila. Em poucos minutos, o castelinho foi encoberto e desapareceu por entre as nuvens. A temperatura cai, mas não o bastante para aliviar nossa sensação térmica.

Voltando pela vila alta, já não se vê mais os grandes morros que rodeiam a vila de Paranapiacaba. Hora de pegarmos o ônibus de volta à Rio Grande da Serra com 2 desejos em mente:

- Que Santo André cuide melhor de um patrimônico histórico único como este;

- E que possamos voltar logo para fazermos trilhas por entre a serra do mar (não conseguimos fazer trilha, pois como já contei, a vila estava lotada de gente e normalmente é necessário agendar com os guias com antecedência).

Ah, para quem gostaria de pernoitar na vila e aproveitar tudo o que a cidade pode oferecer, existem diversas pousadas espalhadas pelas pequenas ruas da vila. Em todas elas, feitas nas antigas casas dos trabalhadores da cidade, os quartos são pequenos e os banheiros são comuns entre todos os hóspedes. As pousadas mais famosas são Shamballah (http://pousadashamballah.com.br) e Os Memorialistas (http://www.paranapiacaba-spr.org.br/memorialistas/). Não ficamos em nenhuma delas, mas recebemos alguns comentários positivos sobre elas.

Avaliação

Acessibilidade: Muito restrita. A Vila de Paranapiacaba não possui nenhum tipo de acessibilidade especial.

Localização: Encrava no meio da Serra do Mar, existem algumas formas de se chegar à vila: por carro, com expresso turístico, por trem e ônibus. Fizemos este último e foi lamentável a demora e as condições dos ônibus utilizados pela EMTU.

A vila: A vila é muito charmosa e com bela arquitetura. O estado de conservação de várias coisas é muito precário e precisa ser restaurado imediatamente (como é o caso da passarela metálica e do museu funicular)

Público: Para adultos. As crianças irão se sentir um tanto quanto entediadas pela falta de atrativos a este público e pelas trilhas que é possível fazer (algumas mais leves, mas existem outras bem mais pesadas).

Programação: O calendário de Paranapiacaba conta com um evento fixo ao ano: o Festival de Inverno e que ocorre anualmente no mês de julho.

Nota final:  7 para a vila inglesa (perdeu pontos pelo estado de conservação de várias coisas) e 3 pelo transporte de ônibus da EMTU (deveria receber 0, mas após entrarmos no ônibus, tudo correu perfeitamente rápido).

Conclusão final: A Vila de Paranapiacaba possui um potencial turístico gigantesco e que é muito mal aproveitada. Voltaremos outras vezes para aproveitar o festival de inverno e fazermos algumas trilhas, torcendo para que os problemas apontados neste post se tornem apenas parte da história recente da vila.

Galeria de Fotos

Fontes históricas:

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